terça-feira, 25 de julho de 2017

Dia de Santiago - 25/07


 
Oração de Santiago
 
Apóstolo Santiago, 
Escolhido entre os primeiros,
Tu foste o primeiro a beber
No cálice do Senhor, 
E és o grande protetor dos peregrinos;
Faz-nos fortes na fé
E alegre na esperança,
Em nosso caminhar
De peregrino
Seguindo o caminho 
Da vida de Cristo 
E alenta-nos para que 
Finalmente, 
Alcancemos a glória 
De Deus Pai, 

Assim Seja.
 



O que falar desse Santo agregador e semeador de amor e amizade? 
Aquele que nos chama para momentos especiais de interiorização e comunhão com a natureza e conosco?
O que dizer desse homem simples que a tanto amou Jesus e por seu amor e devoção também foi morto?

Momento de agradecer àquele que tanto nos oferece, que nos mostra o caminho do amor, da paz e da gratidão como forma de ser e estar nesse mundo.
Chegar à Santiago de Compostela peregrinando é vivenciar uma fé que eu nunca pensei que pudesse perceber. É honrar a vida e fazer parte dela com total entrega e alegria. Viver toda a magia de peregrinar a caminho de Santiago e ali receber o seu abraço e e seu acolhimento é um dos momentos mais felizes da vida.

Sim, receber o Seu chamado é mágico e especial, fazer parte dessa egrégora de energia milenar, pura e transparente é mágico. Tudo o mais fica pequeno e insignificante diante da grandeza de estar completamente envolvida por ela. santiago é o pai, o irmão, o filho, o amigo que lançamos mão para nos acolher e nos ouvir. Ele é todo amor.

Tive o privilégio de peregrinar por aqueles caminhos por duas vezes, e também poder participar da linda festa em sua homenagem no dia 25/07.

Assista o vídeo dessa festa maravilhosa de 2014, ano em que eu estive lá!
https://www.youtube.com/watch?v=cLifUofsFsE

Toda essa projeção é feita na Catedral, as pessoas chegam no início da noite, colocam uma manta no chão, levam um lanche e ficam aguardando a linda festa que se inicia a meia noite ( do dia 24 para o dia 25/07). No dia 25/07/2014, eu assisti a chegada dos Reis da Espanha para participarem da Missa Oficial na Catedral, foi uma cerimônia muito linda! A cidade toda está em festa, muitas programações acontecem pelas ruas, nas praças.



Eu na chegada

Já li diversas histórias e estudos sobre Santiago ( em espanhol), São Tiago ( em português) Saint Jacques ( em francês), escolhi esta bem simples abaixo. 

Na Bíblia é comumente referido sob o nome de Jacob ou Jacó, termo que passou ao latim como Iacobus e derivou em nomes como Iago, Tiago e Santiago (sanctus Iacobus). Tiago filho de Zebedeu ou Santiago Maior foi um dos primeiros discípulos a derramar o seu sangue e morrer por Jesus. Membro de uma família de pescadores, irmão de João Evangelista -ambos apelidados Boanerges (‘Filhos do Trovão’), pelos seus temperamentos impulsivos- e um dos três discípulos mais próximos de Jesus Cristo, o apóstolo Santiago não apenas esteve presente em dois dos momentos mais importantes da vida do Messias cristão – a transfiguração no monte Tabor e a oração no Jardim das Oliveiras -, senão que também formou parte do restrito grupo que foi testemunha do seu último milagre, a sua aparição já ressuscitado nas margens do mar de Tiberíades. Após a morte de Cristo, Santiago, apaixonado e impetuoso, formou parte do grupo inicial da Igreja primitiva de Jerusalém e, no seu labor evangelizador, adjudicou-se-lhe, segundo as tradições medievais, o território peninsular espanhol, concretamente a região do noroeste, conhecida então como Gallaecia. Algumas teorias apontam que o atual patrono de Espanha chegou às terras do norte pela desabitada costa de Portugal. Outras, no entanto, traçam o seu caminho pelo Vale do Ebro e pela via romana cantábrica e há inclusivamente as que asseguram que Santiago chegou à Península pela atual Cartagena, desde onde prosseguiu a sua viagem até à esquina ocidental do mapa.

Fonte: https://vivecamino.com/pt/peregrinacao/quem-foi-santiago/



Foto da Catedral durante a festa do Apóstolo

ULTREYA!!!
VIVA SANTIAGO!!!!

domingo, 23 de julho de 2017

O Botafumeiro

"Tem um santo Compostela
E o rei dos incensários
Que de nave em nave voa."


VICTOR HUGO. Orientais




Qual o peregrino não ouviu falar do famoso Botafumeiro da Catedral de Santiago de Compostela? 
Todo peregrino sonha em assistir a Missa dos Peregrinos e ser testemunha do grande incensário que a todos emociona.
Porém, nem sempre isso é possível, depende de diversos fatores.
Mas vamos conhecer um pouco da história do Botafumeiro?
O Botafumeiro é um dos símbolos mais famosos e populares da catedral de Santiago de Compostela.É um incensário de grandes dimensões, pesa 53 kg e mede 1,50 mt, está suspenso a uma altura de 20 metros e pode alcançar 68 km/h. Ele se move na cúpula da Catedral até as naves laterias. Oito homens são necessários para movimentá-lo, são mais conhecidos como "tiraboleiros". 
O Botafumeiro é utilizado por motivos litúrgicos, da mesma forma que qualquer sacerdote utilizaria um incensário no altar, e funciona nas principais solenidades na Catedral.
Esse grande incensário simboliza a verdadeira atitude daquele que crê. Assim como a fumaça do incenso sobe mais alto dentro da Catedral, assim também as orações dos peregrinos devem alcançar o coração de Deus. Também, o aroma do incenso perfuma toda a Basílica compostelana, da mesma maneira, o cristão com as suas virtudes e seu testemunho de vida deve impregnar do bem os ensinamentos de Cristo na sociedade e na sua comunidade.
A primeira referência documental que se tem do Botafumeiro, é uma anotação numa página do Códex Calixtino, onde se lê " Turibulum Magnum", do séc XIV.No decorrer da história, tiveram vários Botafumeiros. Atualmente existem 2 exemplares, um deles em latão que data de 1851, obra de José Losada, que substituiu o que foi furtado durante a ocupação francesa das tropas napoleônicas, e é utilizado atualmente.



Botafumeiro que está na Biblioteca
O segundo Botafumeiro, é uma réplica em prata e foi presenteado ao Apóstolo pelos "Alféreces Provisionales" em 1971, e fica guardado na Biblioteca Capitular.
Oficialmente é utilizado nas seguintes solenidades:
- Epifânia do Senhor - 06 de janeiro
- Domingo da Ressurreição
- A Ascensão do Senhor
- Aparição do Apóstolo - Clavijo - 23 de maio
- Pentecostes
- O martírio de Santiago - 25 de Julho
- Ascensão de Maria - 15 de agosto
- Todos os Santos - 01 de novembro
- Cristo Rei
- Natal - 25 de dezembro
- Traslado dos restos mortais do Apóstolo - 30 de dezembro
Também pode ocorrer em razão de peregrinações que o solicitam a Catedral, que pode ser feito através de uma reserva no site: botafumeiro@catedraldesantiago.es

Fonte: http://www.catedraldesantiago.es/es/node/315
Tradução livre
Somente quem teve a oportunidade de presenciar uma Missa dos Peregrinos com o Botafumeiro pode dizer a emoção que toca o coração. É uma ligação mais que direta, é algo mágico. Desperta a curiosidade, a fascinação e a adoração.

Esse vídeo é divulgado pela Catedral de Santiago de Compostela
https://www.youtube.com/watch?v=MxhxCBnZRw4
Sinta essa emoção e participe da Missa dos Peregrinos, quem sabe a sua sorte não será assistir o Botafumeiro?

ULTREYA!


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sábado, 1 de julho de 2017

O companheiro cajado (atualizado)

"Companheiro de subidas, descidas, do choro e do sorriso, das lamentações e das bençãos. Inseparável, inestimável, incansável. 
Suporte, apoio, melodia e ritmo, amigo, confidente, forte e paciente. 
Guia, consolo, amparo, segurança, bondade e misericórdia. 
Gratidão!"
Célia Maciel


Maior símbolo e companheiro do peregrino, também chamado de bastão, é objeto de diversas homenagens, poesias, textos e até título de diversos livros. Sua importância vai desde a única companhia e "ombro" amigo, especialmente para os peregrinos solitários, até instrumento de defesa, útil para a limpeza das botas, muito utilizado para os exercícios e alongamentos e claro, apoio para equilíbrio na caminhada especialmente nas subidas e descidas.


Amparo até para tirar foto!

O cajado também permite ao peregrino verificar a profundidade do terrenos se este estiver com água ou lama e até saltar obstáculos, buracos, fio de água ou degraus.
Dizem que os primeiros peregrinos utilizavam o cajado como instrumento de defesa de animais ou até de pessoas com más intenções.
Com a tecnologia atual, o cajado também pode ser substituído pelo stick, muito utilizado nos esportes na neve, algumas pessoas se adaptam melhor a eles e muitas vezes utilizam 2, um em cada mão.

Definição segundo a Wikpedia:
  
Um cajado é uma vara de pastor, caracteristicamente tendo a extremidade superior recurvada em forma de gancho ou semicírculo. Ele é usado para tocar nas patas das ovelhas de leve para que elas retornem ao seu caminho não se desviando do caminho. Em algumas ocasiões, o cajado podia ser utilizado como arma. A ovelha conhecia o Pastor pelo cheiro do cajado que se apegava a sua mão, sendo assim, ela conhecia o Pastor e o seu cajado.
O cajado tem duas funções principais:Quando segurado pelo lado da curva, serve de vara para corrigir ou castigar as ovelhas que se desviam, e segurando-o pelo lado reto serve para socorrer a ovelha caída em buracos ou precipício, puxando-a pela curva do cajado.



Cajado tradicional


No decorrer da caminhada percebemos que o bater do cajado no chão adquire um ritmo que se torna importante motivação na caminhada. Geralmente a cada 4 passos toca-se o cajado no solo. Esse ritmo é uma verdadeira música que toma conta de nosso inconsciente e torna-se parte de cada um de nós.
Quando retornamos do Caminho da Fé, a Lia nos confidenciou que sentiu muita falta do ruído do cajado no solo.
Na Caminhada em Louvor a São José, eu e a Dani combinamos de não levar o cajado, resultado: arrependimento total! Ele nos fez muita falta! Foram 25KM com algumas subidas e descidas que poderiam ter sido aliviadas com o querido cajado. Sim, estudos dizem que 1 cajado alivia 30% dos esforço dos joelhos.
Nosso amigo Irineu peregrinou a maior parte de seu caminho sozinho, e chegou a nos relatar que ao derrubar seu cajado no chão, pediu-lhe desculpas, como que tivesse derrubado um querido amigo. Sim, o cajado já fazia parte dele, era a continuação de seus braços, parte integrante de seu corpo, tornaram-se um só.
Esta é a razão para o grande apego que o peregrino tem ao seu cajado, tratando-o com amor e carinho. Este pode ser exclusivo, cabendo a cada pessoa personalizá-lo da forma que quiser ou então confeccionar seu próprio cajado com um galho de árvore bastante resistente. Nos diversos caminhos de peregrinação existem pessoas que confeccionam cajados geralmente de bambu e oferecem aos peregrinos por preços módicos ou até sem cobrar nada.

Para quem efetua a peregrinação a Santiago de Compostela pelo Caminho Francês, em Azqueta (Navarra), Pablito oferece cajados feitos de madeira de avelã gratuitamente, ou troca o seu por um outro adequado a sua altura, bem como ensina a melhor maneira da sua utilização.




Irineu e Daniele com seus cajados


Um bom cajado deve ser leve e resistente e ter um comprimento máximo da altura de quem for utilizá-lo.
Eu me adaptei ao stick, que é muito leve, resistente e telescópio, oferece um apoio importante e consigo alternar os braços, o que é recomendado, ele possui um sistema “anti-shock”, que proporciona conforto em situações inóspitas, onde os impactos tornam-se inevitáveis, possui ponteira de alta resistência e um disco circular protetor para impedir a sua penetração em areia ou neve. Eu utilizei o cajado da Dani em algumas situações, para mim o cajado de bambu ou madeira é muito pesado.



Esse é um monumento ao cajado em Sahagún



Como tudo tem uma regra para facilitar e racionalizar a utilização, o cajado também possui algumas.

      1. Mantenha o braço e o antebraço num ângulo de 90 graus;
      2. Pouse simplesmente o cajado no solo não batendo o mesmo como a querer marcar compasso;
     3. No caso da utilização de apenas um cajado, alterne as mãos, mais ou menos a cada meia hora, assim, pode facilitar o equilíbrio, a distribuição do peso e evita o vício de postura;
    4. O cajado deve acompanhar a passada da perna oposta à mão que a segura (isso você vai perceber automaticamente);
      5. O pulso deve movimentar o cajado quando o terreno for plano.
      6. A utilização de luvas especiais pode auxiliar a evitar machucados nas mãos.


Stiks ao vento!!!

Na pousada de Águas da Prata nós ganhamos fitas coloridas (iguais a do Senhor do Bonfim), e imediatamente enfeitamos nossos cajados, e sticks, ficaram lindos! Eu também coloquei uma bandana no meu cajado que foi muito útil para proteger minhas mãos pois com o tempo elas ficam sensíveis e podem surgir bolhas.




Daniele e Lia utilizando o cajado para fazerem os alongamentos




O cajado é um "elemento muito forte e consistente", nas palavras de Cristo, na Bíblia. Na época os pastores e seu ofício eram relatados como símbolo de trabalho, paciência, humildade. Existem vários trechos na Bíblia onde o cajado é citado. Depois de algumas pesquisas, achei bastante interessante o trecho do Salmo 23, sobre o Pastor e seu Cajado, e remete ao nosso ofício de caminhar.
Transcrevo aqui um trecho:

O Salmo 23 ensina-nos que a presença do Pastor com seu cajado e vara amorosa nos trás muitos benefícios: 
1.Para a nossa solidão, ele oferece companheirismo; "Tu estás comigo".
2.Para o nosso cansaço, refrigério; "Tu me guia e refrigera a alma".
3.Para o nosso erro, a correção; "Tua vara e cajado me consola e encoraja".
4.Para o nosso terror, plena segurança; "Ao teu lado não a Medo".
5.Para as nossas necessidades; alimento, coragem e ânimo; "Tu és meu Anfitrião".
6.Para o nosso senso de transitoriedade, uma garantia de um eterno lar; "Tu me faz habitar na Tua Casa eternamente".
7.Para as nossas debilidades: "Tua bondade e misericórdia".




Os tradicionais a venda em algum lugar do caminho



Mochila e cajado, inseparáveis!

Ultreya!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Albergues...lugar de gente!

É preciso permitir que alguém nos ajude, nos apoie, nos dê forças para continuar. 
Se aceitarmos este amor com pureza e humildade, 
vamos entender que o amor não é dar ou receber, é participar".
Paulo Coelho

Essa é a maior dúvida do peregrino: onde passarei a noite? A caminhada é uma certeza, alimentação pode ser feita durante a caminhada, nas possíveis paradas, mas e a noite? Onde será? Vou conseguir um lugar em algum albergue ou não?

O Caminho de Santiago possui muitos albergues, você pode encontrá-los nos diversos guias e aplicativos disponíveis.
Existem os albergues municipais, que na maioria das vezes é administrado pelas municipalidades, mas existem também aqueles que foram "arrendados" e sua administração está sob responsabilidade de terceiros, albergues paroquiais que estão sob a responsabilidade das igrejas ou conventos e os albergues privados.



Mensagem do hospitaleiro


Os preços variam muito desde uma contribuição consciente até média de 12 Euros.
Geralmente você vai encontrar aquele quartão coletivo cheio de beliches, com banheiro também coletivo, chuveiro com timer, cozinha compartilhada. Mas em alguns albergues pode encontrar quartos menores com 4 beliches e alguns banheiros, fazendo com que o uso seja melhor dividido. Ou então em albergue privado, pode encontrar quartos ou suítes menores, com 2 ou 3 camas, o que significa uma suíte maravilhosa!
Muitos albergues fornecem alimentação, jantar e café de manhã. Geralmente você consegue utilizar a cozinha e fazer o seu jantar, as compras podem ser feitas num mini mercado dentro do albergue ou em algum lugar na cidade/pueblo onde estiver.




Descansando


Não vejo problema algum em conhecer o albergue antes de se registrar, perguntar se tem refeição, camas embaixo ( eu acho bem mais confortável, pois você tem um lugar para sentar, retirar as botas, se arrumar com mais tranquilidade), lavadora e secadora de roupas, água quente, cobertas, aquecedor, e só então decidir se quer ou não permanecer no local.
Eu mesma já entrei em albergues para conhecer e decidi não ficar por vários motivos. Já fiquei em albergue que parecia uma suíte de hotel, com aquecedor, mantas, banheiro privativo, tomadas e luminárias individuais, restaurante, lavadora de roupas, enfim, todo o conforto que o peregrino merece pelo mesmo preço. Mas também fiquei em albergue com as camas velhas, sujas, colchão super usado, mantas velhas, chuveiro frio, box entupido, comida horrorosa!




Donativo estipulado

Decididamente eu não acredito que o peregrino deva ser tratado de forma a merecer o sofrimento. Não compartilho da frase que o peregrino deve aceitar o que lhe oferecerem e ainda agradecer. Especialmente se estiver pagando por isso. Todos nós sabemos que O caminho de Santiago é uma significativa fonte de renda para os Espanhóis e especialmente para as finanças do Governo, sendo assim, nada impede que a estrutura seja adequada e confortável. Que o peregrino seja muito bem tratado e valorizado.


Mensagem no albergue

Uma vez, confiei na hospitaleira de um albergue e deixei as minhas roupas para serem lavadas e secas, saí para o jantar. Ao retornar, ela me disse que já havia lavado as roupas, mas estavam secando e me entregaria no dia seguinte. Confiei. Ao acordar, ela me ofereceu o café da manhã, ao entrar na cozinha, minha roupa estava pendurada no varal interno e a roupa secando ao redor da lareira! Resultado, minha roupa toda limpa e cheirando a fumaça!! E ainda paguei por isso!
Em outro albergue, deixei minhas roupas na secadora e fui descansar um pouco, ao retornar a lavanderia, outro peregrino tinha retirado a minha roupa ainda molhada, colocou num balde e colocou a sua roupa para secar!
Por isso a minha dica é: quando utilizar as máquinas de lavar e secar roupa, fique de olho, verifique a temperatura da secadora ( se a temperatura estiver muito baixa demora demais para secar).



Cozinhando

Minha maior dificuldade era mesmo dormir com os roncadores. Eles estão por toda a parte!! Dormir com a sinfonia dinamarquesa era um martírio! Não tem diferença de sexo, nacionalidade ou faixa etária, a sinfonia noturna é grande. Recomendo os protetores auriculares caso você consiga usá-los.

Tente fazer amizade com o hospitaleiro (a), certamente conseguirá dicas importantes, uma cama melhor, ou aquele quarto reservado especial. Uma vez, cheguei no albergue particular, tinha 2 quartos (6 beliches, "liteiras em espanhol", em cada um). Nos acomodamos no quarto e saímos para o jantar. No retorno, a senhora hospitaleira estava muito brava, e como uma boa espanhola ficava falando alto por todo lado. Entrei no quarto e me assustei com o forte e insuportável cheiro de botas e meias que há muito tempo não viam água. Fui conversar com a hospitaleira e ela estava brava, pois as donas (sim... 2 moças!) daquelas botas se recusaram a lavar as meias. O quarto ficou tomado por aquele cheiro horrível! Eu nunca tinha presenciado algo dessa magnitude, acho que se riscasse um fósforo, explodiria tudo! A senhora hospitaleira, que já tinha ficado minha super amiga, veio conversar comigo, abriu o segundo quarto e pediu para que me transferisse. Os demais permaneceram no mesmo quarto e nem me pergunte como passaram aquela noite!

A maioria dos albergues fecha a porta as 22:00h, depois disso ninguém mais entra. O hospitaleiro vai embora e tudo anda sozinho. É claro que se o albergue for privado e você estiver num quarto privativo, esse horário pode ser modificado.
O mesmo acontece com o horário de sair pela manhã. 8:00h é o limite para deixar o albergue e pegar o caminho. Já fui acordada as 6:00h pela hospitaleira que mais parecia uma militar alemã (mas ela era Austríaca), colocou uma música clássica no volume máximo, acendeu as luzes e dizia good morning em alto e bom som! Nos divertimos muito com ela.

Alerta às Mulheres, o quarto coletivo é aquele com homens e mulheres juntos. Portanto estejam preparadas para ver os homens de cueca passeando pelo quarto. Nos banheiros você estará tomando banho num box, e ao lado um homem estará em outro. Existem albergues em que não tem porta no box do chuveiro, mas o banheiro é exclusivamente feminino. 

A cozinha muitas vezes é bastante disputada para o jantar, caso resolva cozinhar, perceba a movimentação e procure fazer algo bem rápido, pois muitas vezes tem fila para usar o fogão. Uma vez, fizemos as compras para cozinhar num albergue, e uma família italiana estava cozinhando a sua pasta. Eles nos ofereceram o jantar e acabamos comendo a pasta italiana da verdadeira mama!! deixamos as nossas compras no armário para algum peregrino desprevenido.

O albergue também é o local perfeito para desapegos, geralmente chegamos muito cansados e com a mochila "pesada" (de manhã ela pesa 6 kg, a noite já deve ter 60 kg!), por isso você encontrará um lugar com objetos deixados, você pode deixar algo que não usará ou retirar algo que precise.

Existe sempre uma lavanderia, pequena ou grande é o local onde lavamos as roupas na máquina sob o pagamento que varia de 3 a 6 Euros, ou no tanque sem custo algum. Também lavamos as botas se estiverem sujas de lama. Geralmente a disputa do varal é grande,  vale usar a criatividade.



Muitas "literas"

Caso esteja naquele quartão grande coletivo, vai enfrentar um certo barulho pela manhã. Existem peregrinos que preferem iniciar a sua caminhada muito cedo, antes de nascer o sol, acordam e começam a mexer nos sacos plásticos dentro da mochila, depois aquele entra e sai, luzes do celular, pequenos cochichos e inevitavelmente todos acordam. Um grupo de 6 meninas coreanas, acordaram às 5:00h da manhã e ficaram cochichando, se mexendo, zanzando de um lado para o outro e acordaram todo mundo! O pior é que saímos às 7:00 do albergue e elas estavam lá na frente tomando o café da manhã!! Não entendo tanta pressa se o importante é o caminho e não a chegada!

Vale ressaltar que o conceito de higiene pessoal varia muito de pessoa a pessoa, é muito cultural. Muitas vezes você encontrará os chuveiros vazios e os peregrinos deitados em suas camas com as mesmas roupas que caminharam o dia todo!

Confesso que na primeira vez, fiquei um pouco curiosa para conhecer os albergues, já havia me preparado para se necessário, pernoitar em algum hostal ou casa rural, mas em todas as noites do meu caminho eu fiquei mesmo nos albergues. Foi lá que conheci e convivi com os peregrinos de diversos lugares do mundo! Foi onde ouvi histórias, onde fiz a melhor refeição coletiva do caminho, onde rezei, pedi forças para seguir, onde Santiago me preparou a noite de descanso e restaurou meu corpo para mais um dia de caminhada. No albergue é onde a magia acontece. O peregrino chega cheio de dores, cansado, pensando até em desistir, mas a noite a mágica se realiza, leva as dores, o cansaço e renova o corpo e o espírito. O albergue é o porto seguro, o lugar de restauração, do repouso, do pouso. Do encontro com os anjos que nos aguardam e nos guardam. É o lugar de gente, gente que não se esconde, que se mostra por inteiro, sem máscaras. Tantas histórias...

E você? Onde passará a noite?




ULTREYA!








quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pés, Pó e Pedras: Dicas para a sua peregrinação

Pés, Pó e Pedras: Dicas para a sua peregrinação: Sim! O peregrino da atualidade está muito mais preparado do que aqueles que iniciaram as peregrinações há mais de mil anos! Isso é um desme...

Pés, Pó e Pedras: Mulheres no Caminho

Pés, Pó e Pedras: Mulheres no Caminho:    "Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores." Cora Coralina ...

Pés, Pó e Pedras: Mulheres no Caminho

Pés, Pó e Pedras: Mulheres no Caminho:    "Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores." Cora Coralina ...

Dicas para a sua peregrinação

Sim! O peregrino da atualidade está muito mais preparado do que aqueles que iniciaram as peregrinações há mais de mil anos! Isso é um desmerecimento? Acredito que não, pois a motivação de seu coração continuam as mesmas, o amor, a vontade e a determinação também.

Creio então que podemos nos lançar às comodidades e buscar um caminho espiritual igualmente profundo. A peregrinação deve ser um martírio? Um castigo imposto a si mesmo? Claro que não! Até a Igreja Católica se modernizou muito quando fala de "culpa" e "pecado".

Dessa forma tenho algumas dicas importantes para que você possa aproveitar a sua peregrinação com mais conforto, segurança e leveza.

Outros dia ( essa é a minha referência de tempo...), postei aqui os equipamentos que julgo serem necessários, como mochila, botas, roupas, etc. Mas faltaram aqueles itens que, para mim foram fundamentais, pequenas dicas que farão a diferença na sua peregrinação.




Eu e meu equipamento (minha capa pendurada na mochila)

1. Micropore - esse é o primeiro da minha lista, vai proteger seus pés de bolhas, arranhões, machucados, consertos, marcação de material e tudo o que a sua imaginação ou necessidade quiser!

2. Um pedaço de corda de varal - pode parecer estranho, mas ajuda muito para pendurar as roupas para secar, pois os varais dos albergues sempre estão lotados!

3. Sacolinha de tecido furadinho (veja a foto), ela pode te auxiliar a levar seu material de higiene e roupas limpas para o banheiro.

4. Porta dólares - onde você vai guardar os documentos, cartões e valores, próximo ao corpo, inclusive na hora de dormir.

5. Gancho de alumínio em forma de "S" - ele vai ajudar a pendurar a sacolinha com suas roupas e objetos na porta do banheiro (quase não há lugares de apoio nos albergues).

6. Alfinetes - sim, comprei aqueles grandes, que se usavam nas fraldas de bebês. Eles vão servir para consertar alguma coisa (mochila, capa de chuva, calça, ziper, etc), pendurar roupas para secar no lado externo da mochila durante a caminhada (sim... a sua mochila pode virar um varal).

7. Joelheira - depois de uma descida, meu joelho começou a dar sinais de cansaço, demorei 4 dias para encontrar uma farmácia aberta!

8. Palmilhas sobressalentes - os pés se cansam de pisar nas mesmas palmilhas, o revesamento é importante, eu optei por aquelas de gel. A Karine comprou  3 ou 4 pares durante o caminho!

9. Tornozeleira - pelos mesmos motivos da joelheira!

10. Tomada "T" - para ligar vários aparelhos nas tomadas dos albergues, pois a quantidade é muito grande!

11. Dinheiro em espécie - estamos muito acostumados com os cartões, mas nos pueblos pequenos não aceitam! Em outros lugares só aceitam a partir de uma certa quantia.

12. Lenço ou bandana - esse é um coringa, pode te ajudar no sol, na chuva, para proteger o travesseiro, mais leve que a canga.

13. Sacos tipo zip lock - use no lugar da necessáire! Divida os itens nos sacos e nos bolsos da mochila, vai ficar muito mais leve.

14. Não guarde seu sleeping bag na sacolinha - coloque-o bem espalhado no fundo da mochila, vai dividir o peso. Quando ele está naquela sacolinha, vira uma peça com um peso bem maior ( eu digo um tijolo na mochila), além do que é difícil ficar enrolando e apertando dentro daquela sacolinha.... vai economizar tempo e peso.

15. Saco plástico extra - sempre é útil para armazenar lixo ou roupa molhada.

16. Castanhas, chocolate, barras de cereal, balas - nunca deve faltar na sua mochila, em pequenas quantidades, há momentos em que o peregrino necessita energia e não encontra um lugar para comprar. Conheci um peregrino brasileiro, na subida dos Pirineus, ele ficou tão cansado e sem energia, que sentiu muita falta de alguma dessas fontes de energia para seguir em frente.

17. Máquina fotográfica, se você não for um fotógrafo profissional, é dispensável! Assim como tablet, e outras geringonças tecnológicas! Seu celular fará bonito no caminho (inclusive como lanterna)!

18. Pote pequenininho de creme hidratante - pode parecer supérfluo, mas o sol, vento, chuva, poeira, deixam a pele muito seca o que pode causar rachaduras e podem evoluir para machucados. O creme acaba sendo preventivo.

19. Garrafa de água mineral - daquelas simples mesmo, são bem leves, você pode enchê-las nas bicas se água potável, ou comprar outra periodicamente. Lembre-se de nunca completar a garrafa.... sempre esvazie para depois enchê-la (dica da minha amiga Aline).

20. Coloque a identificação na sua mochila, sticks e botas.

21. Esteja preparado para usar o "matinho", nunca se sabe... 

22. Pelo menos 2 mosquetões de alumínio leve. Use e abuse deles!

23. Um bom guia, pode ser em forma de aplicativo no seu celular ou em papel mesmo ( o meu preferido!!).




Essa é a sacolinha que citei no ítem 3


Esse é o gancho do ítem 5


E você? Tem alguma ideia ou sugestão?

ULTREYA!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Mulheres no Caminho

  




"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida,
removendo pedras e plantando flores."


Cora Coralina


Tenho visto muitos questionamentos sobre esse tema, que é matéria de muita preocupação.
Confesso que nunca tive essa preocupação, na minha vida eu nunca me preocupei em sair sozinha, estar sozinha, viajar sozinha. Eu tenho a alma livre e fico muito bem comigo mesma, aproveito os momentos, faço o que me dá vontade e se erro, eu brigo comigo mesma. Faço as minhas descobertas, as minhas reflexões e as minhas mágicas. Sempre fui muito independente, sempre digo que "me criei sozinha", é claro que não foi bem assim, mas costumava resolver meus problemas sozinha.


Me lembro quando eu ainda tinha a Escolinha, estava gravida do Mateus e precisei ir ao supermercado, aquele Hipermercado enorme que fica na Rodovia. Passei a manhã inteira empurrando 2 carrinhos cheio de compras, terminei na hora do almoço e ao guardar as compras no carro senti o cheio de churrasco que vinha do restaurante ao lado. Não pensei duas vezes, entrei e sozinha degustei aquele rodízio! Os garçons todos à minha volta, creio que imaginando que eu estava com "desejo", me deliciei sozinha todas as maravilhas daquele lugar. Saí feliz e satisfeita!


A primeira vez que resolvi fazer O Caminho, conversando com meu marido, disse que iria sozinha, ele certamente ficou preocupado, mas eu estava bastante tranquila, segura e determinada. Comecei a minha preparação, e em seguida a Daniele se juntou a mim e formamos uma dupla perfeita! O mesmo aconteceu em 2015, a princípio iria sozinha, e depois a Lia se juntou a mim, formando outra dupla perfeita, que em seguida formaríamos um trio com a chegada da Karine.




Lia, Karine e eu em Burgos


Em nenhum momento do Caminho eu senti qualquer perigo ou insegurança. Vi e conheço muitas mulheres que fizeram sozinhas e não tiveram nenhum problema. Recebemos sempre carinho e respeito em todos os lugares, somente um homem, se não me engano era da Bulgária, que fez uma graça comigo e com a Lia, sobre "brasileiras e samba" (pura ignorância), mas nós duas demos um gelo nele, ignoramos totalmente e tudo se resolveu. O importante é se impor, ter postura e educação, e tudo se resolve.

Basta seguir os códigos de segurança que já conhecemos e..... BUEN CAMINO!!!

Quem recebe o chamado nem sempre tem uma companhia....

Ultreya!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Motivos para Fazer a peregrinação

" Eu sou o senhor do meu destino

Eu sou o capitão da minha alma".

William Ernest Henley

( Autor citado e preferido de Nelson Mandela)



Diversos motivos podem levar o peregrino a Santiago. Cada pessoa tem em seu íntimo seu segredo muito bem guardado, uma motivação, uma razão. Mesmo que não esteja muito clara e nem tão definida. Outras pessoas vão mesmo sem ter motivo geralmente são percebidos durante o Caminho.

Já sabemos que o peregrino recebe "o chamado", aquela força invisível que atrai, impulsiona e então você passa a respirar, ver, sentir, falar e viver o seu caminho, esse é o ponto de partida, o verdadeiro início. O tempo? Não importa o quanto leve, você já está no caminho!

Não importa o motivo, pode ser espiritual, religioso, de turismo, esportivo e tantos outros que podem ou não estar contidos dentro deles. Você será constantemente questionado, inquirido sobre isso. Muitas pessoas não entenderão, e muitas vezes você não conseguirá explicar. Mas não importa...isso não é relevante. O importante é que você está no caminho.

Independente da motivação, certamente você descobrirá coisas inacreditáveis a respeito de você, vai aprender lições preciosas, vai encontrar desafios, vai se questionar muito, vai se analisar, se amar e se odiar, vai perceber o seu lugar no mundo, vai construir castelos sem portas, vai eliminar pessoas, vai desapegar das coisas, vai sentir falta, valorizar, se desculpar, se perdoar, vai querer ficar, ir embora, abandonar, vai persistir, vai correr, possivelmente compreender, pode desistir de se convencer, respeitar os pontos de vista, vai olhar com outros olhos, acreditar na energia, se sensibilizar, torcer para o tempo parar e também para o mundo acabar, mas vai continuar sendo a sua essência, o seu ser inteiro e despido estará lá.

Lembre-se, não importa o motivo, Santiago sempre prepara um caminho lindo e mágico para os seus queridos peregrinos, basta ter olhos para ver e alma para sentir.









O caminho todo é um Hospital de Almas, como diz a placa em algum lugar.

E a sua alma, por onde anda?

Ultreya! 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conversas no albergue

ÍTACA
Se partires um dia rumo a Ítaca 
faz votos de que o caminho seja longo, 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o colérico Posídon te intimidem; 
eles no teu caminho jamais encontrarás 
se altivo for teu pensamento, se sutil 
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o bravio Posídon hás de ver, 
se tu mesmo não o levares dentro da alma, 
se tua alma não os puser diante de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
nas quais, com que prazer, com que alegria, 
tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir: 
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
e perfumes sensuais de toda espécie, 
quando houver, de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
e fundeares na ilha, velho enfim, 
rico de quanto ganhaste no caminho, 
sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
e agora sabes o que significam Ítacas.


                                                              Konstantinos Kaváfis 
                                                        (tradução de José Paulo Paes)

A certeza de cada dia é que chegaremos no final dele a algum dos albergues. Não, não é nada fácil dormir num quarto enorme, cheio de beliches, com banheiro coletivo, misto, a torneira do chuveiro com timer, ruídos, roncos, odores, luzes, e outras situações que podem suprimir o conforto. mas confesso que em nenhum momento pensei em trocar aquele clima maravilhoso dos grupos de peregrinos, das conversas despretensiosas, das trocas de experiências, das histórias, do compartilhar, do companheirismo, da cumplicidade, da energia de cada pessoa que percorre aquelas trilhas, por qualquer outro local. 
UAU!!! Chegamos! Chegar no albergue é um momento único, mágico! Certeza de uma etapa difícil, mas vencida, conseguimos!  Momento da descoberta do local do descanso, de conhecer o hospitaleiro, de conhecer novos lugares.



   Eu e Dani fazendo graça no albergue


Existem os albergues paroquiais, os privados e os públicos, cada um deles tem suas características próprias. Os valores variam de uma doação espontânea a 12 euros ( foi o teto que paguei), também há variação de tamanho dos quartos, limpeza, quantidade de camas ou beliches, etc.
Mas o mais interessante mesmo é o momento de descanso e da possibilidade de conhecer novas histórias.


Com hospitaleiro Lobo


Foi nm desses albergues que fui apresentada à poesia acima pela Karine. Ela começou a declamar, toda bem decorada, cadenciada, e logo me interessei. Senti uma cadência nos sons das palavras, e a proximidade com o significado do Caminho, estávamos eu, Karine e Lia, predestinadas, a caminhar sem pressa, pois já sabíamos o que nos esperava.
Agora sabemos o significado de Ítaca, e o aprendizado e a riqueza que nos deixou.

Uma observação especial àqueles que tem dúvidas de ficar em albergue, eu indico tranquilamente essa experiência única. Tomem coragem e enfrentem, certamente não se arrependerão!

Gratidão especial a Karine.

Ultreya!


 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Batendo Recorde no Caminho de Santiago



Os primeiros dias de caminhada são bastante difíceis. O corpo ainda se adaptando a rotina, ao esforço, ao fuso horário, a nova e diferente alimentação, ao estranhamento das camas, do travesseiro, a língua local, ao clima, as roupas, a mochila, e tantas outras coisas.

Particularmente o meu ritmo de caminhada é bastante tranquilo, chega a ser lento, Lia e Karine me acompanham. Na saída do albergue sempre encontramos os moradores do pueblo, o dia nascendo, a vida começando. Geralmente somos deixadas para trás, pois costumeiramente apreciamos a paisagem, as pessoas, tiramos fotos, abastecemos de água e frutas, tudo tranquilamente e sem pressa. Tão sem pressa que eu e a Lia, começamos uma brincadeira de tirar fotos dos batedores das portas, e descobrimos verdadeiros tesouros!





um dos batedores de porta 


Todos passam por nós, deve passar pelas cabeças: essas três são muito tranquilas e não chegarão! E não é que chegamos? Duas ou três horas depois, e lá estamos nós encontrando com os apressadinhos nos mesmos albergues!

Mesmo sem considerarmos uma competição, percebemos que muitas pessoas correm contra o relógio e buscam vencer “as léguas” com maior rapidez. O que nos interessa é o caminhar descompromissado, ouvindo os pássaros, os cucos (pela primeira vez na minha vida ouvi um cuco de verdade!), observando os campos, as flores, conversando, rezando, aprendendo, ouvindo o silêncio, puxando conversa, “temos todo o tempo do mundo” (frase perfeita de Renato Russo).

Dizem que a tartaruga aprecia melhor a paisagem do que a lebre. Acredito nisso! Conhecer os lugares caminhando, apresenta a possibilidade de imprimir na nossa mente uma linda fotografia do momento.
O trecho de Zubiri a Pamplona foi cansativo e sofrido. Sol, vento, mochila e os pés... sempre dando sinais de vida! Vencíamos os trechos e procurávamos nos distrair. 

Perdi a minha concha, ou melhor, ela se desapegou. Comprada em Santiago em 2010, quando lá estive com minha mãe, a mesma que havia usado no Caminho em 2012. Penso que ela está numa mochila nova passeando por ai. A Lia me presenteou com outra.

Decidimos fazer uma boa parada para uma alimentação mais reforçada. Escolhemos um local agradável, na entrada uma enorme escultura de peregrino. Uma cabana de madeira aconchegante. Escolhemos uma mesa de madeira dentro e já fomos verificando o cardápio. Pedimos uma tortilla espanhola, mas sugerimos ao chefe do local, outros ingredientes como: tomate, presunto e queijo (as tortilhas tradicionais levam somente ovos, cebola e batata). Ele topou (devo registrar que muitos resistem a sugestões) e nos ofereceu um verdadeiro manjar dos deuses! Ficou deliciosa!

Seguimos o caminho e chegamos a Pamplona já no fim da tarde. Era o domingo de Páscoa e a entrada da cidade estava deserta. Parecia um lugar fantasma. Chegamos ao centro da cidade, local próximo a catedral e próximo ao  lindo Albergue Jesus Maria. 

O lugar nos surpreendeu logo na chegada. Uma antiga igreja agora adaptada a albergue de peregrinos, um lugar lindíssimo! Ao chegarmos num horário mais avançado, grande parte do albergue já estava ocupado. Fomos designadas ao andar superior, local com quatro beliches separados por divisórias de madeira. Os banheiros grandes e espaçosos, tudo novo e limpo. Escolhemos nossas camas e tratamos de cuidar do banho, lavanderia, alimentação, etc.

Nesse dia conhecemos o casal neozelandês Pam e Derek, simpáticos e animados, que iniciavam o Caminho naquele local, e que seriam nossos companheiros em outras etapas do caminho.



Jantar no Albergue Vitória com Pam e Derek ao fundo

Também no beliche ao lado, um rapaz que imediatamente fizemos amizade, o americano Eric. Ele nos contou que fazia O caminho ao contrário e também tentava bater um Record para o Livro dos Recordes. Ficamos encantadas com a história, a coragem e a resistência dele. 




Eric com as Divas.

Eric realmente batia recordes...caminhava em média 60 Km por dia, com uma única parada de 4 minutos! Tudo monitorado por equipamentos para o devido registro. Alimentava-se de frutas e castanhas. Sim, ele conseguiu! Porém ainda falta a homologação pela equipe do Guiness Book.
Para os peregrinos, o Caminho não é uma competição, mas Eric tinha objetivo próprio, diferente, não menos importante.

O importante é a intenção, o coração e a motivação que nos leva ao caminho.
Hoje, abril/2017, Eric Toddre, voltou ao Caminho, dessa vez pela Via de la Plata, em 2016 percorreu outros também, além da Espanha ainda na França e Itália, acompanhado de sua mãe.
Bom peregrino ele!

Post escrito em 2015



ULTREYA!